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Hormônios da tireoide, o combustível da qualidade de vida

28/01/2021 - Rosália Padovani, médica endocrinologista e diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - Regional São Paulo (SBEM-SP)

Ciência estuda o momento exato para a realização de testes laboratoriais capazes de identificar problemas mesmo em pacientes que não apresentam sintomas 

Por Rosália Padovani, médica endocrinologista e diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - Regional São Paulo (SBEM-SP)

 

A tireoide é uma glândula pequena, em formato de borboleta e localizada na região cervical anterior. Apesar do seu tamanho, tem uma importância grandiosa para a nossa qualidade de vida: produzir hormônios capazes de regular a velocidade de funcionamento do organismo. Conhecidos como tiroxina (T4) e 3,5,3'-triiodotironina (T3), os hormônios tireoidianos agem em todos os órgãos para controlar as atividades corporais de forma adequada. Existem receptores para os hormônios tireoidianos em praticamente todas as células do nosso corpo, portanto, eles agem essencialmente em todos os sistemas do organismo, seja de forma direta ou indiretamente. 

Mas nem sempre o equilíbrio acontece. O excesso ou a falta da produção desses hormônios provoca distúrbios de função tireoidiana que trazem sérias consequências à qualidade de vida. O hipotireoidismo é o que acontece com mais frequência, impactando uma parcela significativa da população. Sua prevalência varia entre os países, sendo entre 0,3% e 3,7% nos Estados Unidos e entre 0,2% e 5,3% na Europa, dependendo da definição usada e da população estudada.  

No Brasil, a prevalência de TSH elevado em uma amostra representativa de 1.220 mulheres adultas da cidade do Rio de Janeiro foi de 12,3%, alcançando 19,1% entre aquelas acima de 70 anos. Já na região metropolitana de São Paulo, a prevalência de hipotireoidismo em 1.085 indivíduos estudados foi de 8%. 

Em relação ao gênero, os distúrbios da tireoide são mais frequentes entre as mulheres, mas não se sabe exatamente o porquê. As prováveis causas estão associadas aos hormônios femininos e à dominância estrogênica.

 

No hipotireoidismo a produção hormonal é diminuída, portanto, todo o organismo trabalha mais devagar. Em uma analogia de fácil compreensão, é como se faltasse combustível para o carro. O resultado disso no corpo humano são sintomas como: fadiga, cansaço, fraqueza, sonolência, intestino preso e, nas mulheres, a menstruação fica mais frequente e com aumento do volume menstrual (a chamada menorragia). O ganho de peso, uma das queixas mais constantes dos pacientes, não é um sintoma em si, mas pode ser resultado do funcionamento mais lento do organismo somado à retenção hídrica, esta sim um sinal do distúrbio. Em resumo, a pessoa sente falta de ânimo para realizar atividades simples do dia a dia.  

Já no chamado hipertireoidismo a glândula produz excesso de hormônios e a principal causa desse distúrbio, assim como do hipotireoidismo,  é autoimune. Em casos assim, o organismo fica mais acelerado, o que traz agitação, ansiedade, insônia, quadros de diarreia e, nas mulheres, ciclos menstruais mais longos, ou seja, elas menstruam menos. Nos casos mais graves, o hipertireoidismo também pode estar associado a sintomas psicóticos. 

Testes laboratoriais da função tireoidiana ajudam a descartar ou diagnosticar possíveis distúrbios e devem ser prescritos pelo médico endocrinologista a todos os indivíduos sintomáticos. Entretanto, a grande controvérsia da literatura ainda está em estabelecer o momento certo para realizar esse tipo de exame em pessoas assintomáticas. Tanto que a recomendação diverge entre os principais guidelines. Mas, em geral, e o que a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) recomenda, toda pessoa com idade igual ou superior a 35 anos deve fazer uma primeira triagem para a avaliação do TSH (hormônio tireoidiano que estimula a glândula  a produzir T4 e T3), mesmo que não apresente qualquer sintoma. Se o resultado for normal, o exame deverá ser repetido a cada cinco anos. 

Há situações em que a triagem precisa ser feita de maneira diferente. Uma delas é na gravidez, quando o recomendado é investigar preventivamente a função tireoidiana em mulheres que apresentam mais risco, ou seja, aquelas com IMC mais alto ou obesas, com histórico de diabetes ou exposição à radiação, que tenham feito cirurgia na tireoide anterior e até em quem engravida após os 30 anos. Idosos também devem ser acompanhados de perto para os distúrbios da tireoide porque eles podem ocorrer junto a outras comorbidades, principalmente as cardíacas, e prejudicar a qualidade de vida. 

 

Acompanhe o bate-papo com Rosália Padovani em vídeo

 

Nos últimos anos tem ocorrido um aumento no número de diagnósticos de alterações na tireoide. Com a melhora da qualidade dos métodos de diagnósticos laboratoriais e de imagem, mínimas alterações, que antes passavam despercebidas, agora estão sendo diagnosticadas. Com isso, o número de distúrbios subclínicos da tireoide aumentou, assim como também cresceu o diagnóstico de nódulos tireoidianos cada vez menores. 

Os nódulos provocam alterações celulares, mas não necessariamente modificam a função tireoidiana. O crescimento no diagnóstico de nódulos benignos e até de câncer na tireoide, felizmente, não vem sendo acompanhado do aumento da mortalidade causa-específica, o que pode ser um indício de que, de fato, a melhora da qualidade dos métodos diagnósticos seja a principal causa desse aumento, especialmente nos últimos 30 anos e devido ao aumento da qualidade das imagens obtidas nos exames. 

Outro fator a ser considerado como causa do aumento de diagnósticos de problemas de tireoide é a grande quantidade de solicitações de exames de função tireoidiana e ultrassom, muitas vezes sem indicação para tal. Ainda em relação aos nódulos de câncer de tireoide, outras possíveis causas relacionadas ao aumento da incidência são obesidade, tabagismo, exposição a tratamentos com radiação (especialmente na infância) e ingestão excessiva de iodo. 

Em todos os casos, a medicina diagnóstica tem papel fundamental ao ajudar na investigação precoce das patologias que afetam a glândula e, assim, possibilitar o início do tratamento o quanto antes. Mesmo para aqueles que já possuem a confirmação da doença, os testes laboratoriais são essenciais para o acompanhamento adequado, para avaliação de progressão e remissão e para eventual indicação de tratamentos mais assertivos e menos invasivos, como é o caso da radioablação para nódulos tireoidianos benignos. 

O futuro das pesquisas aponta para o conhecimento da biologia tumoral da célula folicular tireoidiana, que vem avançando muito nos últimos anos na prática clínica. O conhecimento das alterações genéticas no câncer de tireoide, inclusive, permite seu uso tanto no diagnóstico da doença quanto na avaliação prognóstica dos pacientes. 

 

*Depoimento de Rosália Pandovani concedido à jornalista Renata Armas, da agência essense.

 

Veja também:

De síndrome do ovário policístico a hipotireodismo: o papel da medicina diagnóstica na saúde hormonal

Disorders of Thyroid Function Presentations at American Thyroid Association: 89th Annual Meeting

Thyroid Function Tests - ATA 

High prevalence of Hashimoto’s thyroiditis in patients with polycystic ovary syndrome: does the imbalance between estradiol and progesterone play a role? 

Global epidemiology of hyperthyroidism and hypothyroidism 

Evolving Understanding of the Epidemiology of Thyroid Cancer 

Thyroid and the environment: exposure to excessive nutritional iodine increases the prevalence of thyroid disorders in Sao Paulo, Brazil.

 

 

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