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Mais ciência para preservar a memória

18/02/2021 - Marcio Balthazar, neurologista do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia e professor doutor do Departamento de Neurologia da FCM/Unicamp

 No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, 33% da população com mais de 85 anos é diagnosticada com Alzheimer, enquanto pesquisadores do mundo todo tentam desvendar as causas da doença

 

Entre as chamadas doenças da cognição, a doença de Alzheimer é a mais conhecida e frequente. Tamanha prevalência estimula cientistas a pesquisar sobre as possíveis causas do desenvolvimento da patologia e da perda de memória enfrentada por muitos pacientes. Mas ainda não há respostas definitivas para essas e outras questões que envolvem o mal. 

Tenho dedicado minha carreira a entender mais sobre a doença em si e suas causas moleculares, anatômicas e clínicas. E, em minhas pesquisas, vi a definição de Alzheimer mudar ao longo dos anos, partindo de uma classificação puramente clínica para outra, biológica, que envolve alterações em pelo menos duas moléculas do organismo: o peptídeo beta-amiloide e a proteína tau fosforilada. Assim, quando elas aparecem alteradas nos exames de biomarcadores de fluidos se trata, por definição biológica, de um quadro de Alzheimer. 

Mas esse dado sozinho não explica toda a complexidade da doença. Tanto é que existem idosos que têm a patologia no cérebro, mas nunca desenvolvem os sintomas característicos, como falhas de memória e lentidão para execução de tarefas rotineiras E o contrário também acontece. O que muda é a classificação, que pode partir desde uma doença de Alzheimer pré-clínica, sem sintomas, até quadros de demência avançada. 

 

A ciência ainda não sabe todas as causas para a doença, e há uma chance cada vez maior de questões genéticas e inflamatórias também colaborarem para o desenvolvimento do Alzheimer. Há também uma grande variabilidade interindividual: uma paciente pode ter alteração na proteína tau porque possui uma neuroinflamação, enquanto outro apresenta o mesmo traço biológico no cérebro, mas por causa diversa, como um fator vascular ou alterações nos receptores cerebrais de insulina, por exemplo. Já o componente genético é, sim, um fator de risco elevado e já existem genes conhecidos, como o alelo epsilon-4 da apolipoproteína E (apoE). Casos em que a doença é passada de pai para filho pelo cromossomo dominante são muito raros e correspondem de 2% a 5% do total. 

Mesmo com a dificuldade da ciência em entender a fisiologia do Alzheimer, os métodos diagnósticos alcançam um alto índice de acerto em relação a outras doenças neurodegenerativas, algo entre 85 e 90%, sobretudo com a inclusão de novos biomarcadores de fluidos que podem ser acessados in vivo, ou seja, no paciente, por meio do  líquido cefalorraquidiano (LCR) e por exames nucleares, como o PET [exames PET ainda não são comercialmente disponíveis no Brasil]. Esse número é bastante significativo, porque o diagnóstico  de Alzheimer com 100% de precisão só acontece na autópsia do cérebro de pessoas já falecidas. 

A vantagem dos exames de biomarcadores de fluidos é que eles dosam as proteínas beta-amiloides e tau (total e fosforilada) e tornam o diagnóstico mais objetivo. Só que existem alguns pontos importantes de variabilidade na quantificação de beta-amiloide que precisam ser aprimorados. Há casos, por exemplo, de um mesmo paciente realizando seus exames no mesmo laboratório e recebendo duas análises distintas. A solução nesse cenário é optar por métodos que tornem o exame mais estável - o que já existe. 

Outro ponto importante é saber o momento certo de indicar esse tipo de investigação. Normalmente é quando há dúvida se o paciente tem Alzheimer ou outra doença específica, pois apresenta sintomas dúbios, como alterações comportamentais, mas sem a perda da memória. Daí, um resultado em que apareça uma assinatura típica de Alzheimer faz com que o diagnóstico seja fechado. 

Acompanhe o bate-papo com Marcio Balthazar em vídeo 

Para o futuro, a ideia é que exista um exame simples - feito a partir de amostras de sangue - cujo resultado aponte com precisão a chance percentual de uma pessoa vir a desenvolver a doença enquanto envelhece. Só que hoje esse tipo de informação esbarra em um problema sério: a falta de tratamentos eficazes para a preservar a memória dos pacientes. 

Minha linha de pesquisa na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) segue justamente esse raciocínio: encontrar um biomarcador precoce para o Alzheimer que prediga quem vai desenvolver a doença. Entre os voluntários do estudo estão pessoas com queixas de memória e são feitos testes de biomarcadores multimodais: de fluidos para quantificação de proteínas beta-amiloide e tau, de sangue, ressonância magnética e, finalmente, estamos tentando incluir o PET amiloide. A ideia é acompanhar essas pessoas anualmente para entender o que acontece e saber, ao final, qual dos exames foi capaz de predizer no momento zero quem ia, de fato, desenvolver Alzheimer. 

Um estudo recente, por exemplo, fez uso de biomarcadores de fluidos em pessoas com comprometimento cognitivo leve para constatar a alteração da proteína  nos voluntários com o intuito de usar uma droga anti-amiloide que “limpa” o cérebro dessa proteína. No entanto, o resultado ficou muito aquém do que se esperava, caso a doença realmente fosse causada por isso, e o declínio cognitivo permaneceu em evolução, embora tenha sido notada certa lentidão no avanço da doença. Em março de 2021 a droga passará por nova reavaliação no FDA . 

São inúmeras as linhas de pesquisas existentes atualmente e, enquanto a ciência se dedica a encontrar formas mais eficientes de detectar e tratar o Alzheimer, cabe a cada um de nós manter uma vida mental sempre ativa, pois só assim é possível preservar por mais tempo a memória e a saúde do cérebro.

 

*Depoimento de  Marcio Balthazar concedido à jornalista Renata Armas, da agência essense.

Veja também:

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Alzheimer: número real de doentes pode ser o dobro do que se pensa

Linha completa de biomarcadores para doença de Alzheimer

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