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De falhas na memória a intestino preso, o papel da medicina diagnóstica in vitro na detecção do hipotireoidismo

24/06/2021 - Por Rosa Paula Mello Biscolla*, médica endocrinologista especializada em doenças da tireoide e responsável pelos exames hormonais de endocrinologia do Fleury Medicina e Saúde

Todas as doenças autoimunes, especialmente as doenças da tireoide, a tireoidite, o vitiligo e a artrite, acometem preferencialmente e tem maior prevalência em mulheres. E embora existam várias teses que buscam explicar essa relação, até mesmo com foco nos hormônios femininos, a ciência ainda não sabe claramente o porquê de a população feminina ser maioria nesses casos. Só que elas não são as únicas afetadas, e o hipotireoidismo pode acometer qualquer pessoa, até recém-nascidos, sempre com uma instalação lenta e gradual e tendo como principal causa uma inflamação da glândula que afeta a produção hormonal - e que pode ser confirmada pela medicina diagnóstica in vitro. 

Acima dos 6 anos, a principal causa de hipotireoidismo é de origem autoimune. Isso significa que são as próprias células do organismo que enxergam a tireoide como um órgão “invasor” e, por isso, passam a criar anticorpos contra enzimas muito importantes para a formação de T3 e T4. Tudo isso, claro, prejudica a produção hormonal da glândula, mas nem sempre há sinais claros de que isso está acontecendo, ou então aparecem sintomas inespecíficos, que não resultam de uma alteração na tireoide. É por isso que a avaliação clínica do médico endocrinologista é fundamental. 

Antes de listar os sintomas, deixo claro aqui que a função tireoidiana é importante para regular o coração, o intestino, a temperatura da pele, nossos pensamentos e memória. Portanto, sempre que há uma situação de pouca produção hormonal - e daí vem o nome hipotireoidismo - é possível observar desaceleração dos batimentos cardíacos, alteração nas taxas de colesterol, pele seca e fria, falhas de memória, sonolência, intestino preso, menstruação irregular e cansaço excessivo - sinais que podem ser confundidos com inúmeras outras doenças. 

Acompanhe a entrevista com Rosa Paula Mello Biscolla em vídeo

A presença de um ou mais desses sintomas não é fator confirmatório para o hipotireoidismo. O diagnóstico começa com o exame físico em consultório, que analisa a pressão arterial, observa a pele e verifica a presença de bócio (aumento da glândula), entre outras condutas. E é apenas depois dessa etapa que a medicina diagnóstica in vitro entra em cena para dar suporte à investigação. 

Antes de falar dos exames, preciso explicar uma fisiologia importante da tireoide. Sempre que o hormônio T4 atinge níveis baixos, a hipófise percebe sua falta e libera um outro hormônio, dessa vez tireoestimulante (TSH), justamente para que a glândula possa voltar a funcionar bem e retomar a produção hormonal saudável. Mas nada disso adianta quando a tireoide está doente. Nessa condição, os exames laboratoriais vão mostrar um nível baixo de T4 livre e alto de TSH.

A depender dos resultados desses primeiros exames, das queixas do paciente e de seu histórico familiar, o diagnóstico de hipotireoidismo já pode ser confirmado. Em casos de dúvidas, exames in vitro que investigam os anticorpos que estão atacando a tireoide ou a ultrassonografia da glândula são outras ferramentas que apoiam o diagnóstico do médico endocrinologista. Mas a decisão sobre quais exames solicitar sempre deve ser individualizada a partir da queixa de cada paciente e da probabilidade dele ter uma doença da tireoide. 

Diagnosticando o hipotireoidismo e dando início ao tratamento, que é contínuo, o paciente pode passar a ser monitorado na unidade básica de Saúde, no caso do sistema público, pelo clínico geral ou com o endocrinologista. O hormônio levotiroxina (T4) que precisa ser reposto por meio de um comprimido durante o tratamento, é comprado na farmácia, mas ele é exatamente igual ao que a glândula produz e não há motivos para temer efeitos colaterais a partir de sua administração. Encontrando a dose certa, o paciente só precisa de acompanhamento médico uma vez por ano. 

Embora o tratamento seja bem estabelecido, há estudos que seguem investigando formas eficazes de controle da doença. Um deles investiga se apenas a reposição do hormônio T4 é mesmo suficiente ou se o T3 também deveria ser adicionado a esse protocolo de conduta. Outras linhas de pesquisa desenvolvem formulações variadas de T4 e, nos Estados Unidos, por exemplo, já existe uma versão líquida em flaconetes para venda, o que ajuda principalmente no tratamento das crianças. 

O tempo de liberação mais longo do hormônio sintético é também estudado, o que faria com que a ingestão das doses pudesse ser realizada a cada dois dias. Mas tudo isso ainda é experimental. Na prática, o aumento das opções de dosagens da levotiroxina tem ajudado a individualizar o tratamento e, com isso, proporcionar um resultado melhor a todos os pacientes. 

*Depoimento de Rosa Paula Mello Biscolla concedido à jornalista Renata Armas, da agência essense. 

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