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Diagnóstico in vitro apoia identificação e tratamento da hantavirose

21/10/2021 - Por Leon Capovilla*, infectologista do Hospital Moriah

O hantavírus é o agente causador da hantavirose, uma doença infecciosa rara e transmitida por urina, fezes e saliva de roedores. O contágio se dá quando uma pessoa entra em contato com esse material infectado e inala seus odores ou quando sua pele toca diretamente essas substâncias. Ainda que existam áreas endêmicas da hantavirose no Brasil, como no oeste do Estado de São Paulo, na minha experiência clínica como médico infectologista eu nunca atendi diretamente um paciente com a sintomatologia da doença. 

Mas isso não significa que não tenhamos que estar atentos à sua incidência. Durante a minha formação médica, eu tive contato com a hantavirose através de um professor que pesquisava ativamente essa patologia no Brasil e que me fez conhecer sua manifestação mais de perto. Isso porque, embora eu atualmente trabalhe no Hospital das Clínicas e no Hospital Moriah, ambos na cidade de São Paulo, sou formado pela USP Ribeirão Preto. E se na capital paulista a hantavirose é bastante rara, em Ribeirão Preto há mais casos notificados.

A hantavirose tem basicamente duas formas de apresentação, divididas entre novo mundo, com suas manifestações nas Américas, e velho mundo, específica da Europa e Ásia. A forma comum no Brasil, do novo mundo, é uma doença extremamente grave. E digo que é grave ao ponto de infectar um atleta de alto nível e matá-lo por insuficiência respiratória em apenas três dias. Por isso mesmo, o reconhecimento rápido dos sintomas e o diagnóstico precoce são essenciais para a aplicação do tratamento adequado, que pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

A suspeita do diagnóstico pelo médico que recebe o caso não é simples. Isso porque a hantavirose, muitas vezes, apresenta os mesmos sintomas da dengue: o paciente relata dores no corpo, fraqueza muscular e apresenta febre alta e vermelhidão na pele. A diferença é que, além de tudo isso, possui também um comprometimento pulmonar importante, ou seja, seu pulmão vai aparecer “fechado” nos exames de imagens, como tem acontecido mais recentemente nos casos graves de COVID-19. E tudo isso acontece muito rapidamente no organismo, de forma dramática para o paciente.  

Acompanhe a entrevista com Leon Capovilla em vídeo

Sempre que é preciso fazer o diagnóstico da hantavirose em uma área endêmica, normalmente a radiografia de pulmão é usada como uma boa triagem para diferenciar o quadro da dengue. Depois disso, em casos nos quais a imagem do raio-X e a ausculta pulmonar indicam comprometimento do órgão, o diagnóstico in vitro é necessário. 

Como a doença não tem cura, realizar o diagnóstico rápido e preciso é a chave para evitar o colapso dos rins e do sistema cardiopulmonar, o que pode levar à morte. O médico infectologista costuma ser acionado quando o paciente é internado, pois ele pode ajudar a conduzir uma melhor investigação clínica do quadro. Sei que da forma como estou relatando o avançar desta investigação pode até parecer que se trata de algo simples de ser pensado no momento do atendimento. Mas eu reitero que não é fácil chegar à hipótese da hantavirose, especialmente quando outros quadros competem pelos mesmos sintomas inespecíficos, como uma forma grave de leptospirose, uma COVID que provoca uma lesão de pele ou uma manifestação de dengue. Por isso, acionar o médico especialista é sempre a melhor conduta.

O diagnóstico in vitro é uma boa maneira de confirmar a hantavirose para dar início rápido ao tratamento de suporte ao paciente, que ajuda a controlar os sintomas. A doença, assim como acontece com outras patologias virais, ainda não possui um tratamento específico disponível. Entre as opções terapêuticas estão o suporte de UTI e a diálise dos rins para os casos mais críticos. 

Os testes rápidos, feitos com apenas uma gota de sangue do paciente, seriam ferramentas simples e importantes para o diagnóstico da doença em locais estratégicos, entre eles áreas afastadas de grandes centros urbanos como, por exemplo, a cidade de Araraquara (no oeste de São Paulo), local onde se pode encontrar um dos hantavírus mais letais e que leva o mesmo nome do município. Porém, até o momento esses testes estão disponíveis somente em âmbito de pesquisa. Pensando em termos epidemiológicos, pode-se traçar um mapa da infecção, analisando o local de contágio e potencial de contaminação.

Além desse tipo de exame rápido, também é possível pesquisar o vírus em si, com os chamados testes PCR, ou então usar a sorologia para investigar a produção de anticorpos específicos das classes IgM e IgG. No caso da hantavirose, a indicação é realizar dois testes em uma janela de tempo de duas semanas para que o aumento na produção desses anticorpos indique que a doença se estabeleceu.

A hantavirose, embora seja uma doença com alta letalidade, tem uma transmissão indireta, que acontece apenas de animal para ser humano, com a vantagem de o vírus ser inativado com medidas preventivas simples, como promover a circulação do ar de locais em que haja urina de ratos selvagens, por exemplo. 

E quanto menos hantavírus estiver em contato com o homem, menor o risco do desenvolvimento da doença em si. Por isso, em locais de risco elevado, como um galpão fechado há tempos, vale a pena adotar um hábito de segurança com o qual nos acostumamos nos últimos meses: o uso de máscaras. Contra os vírus que podem causar doenças graves, convém não bobear. 

*Depoimento de Leon Capovilla concedido à jornalista Renata Armas, da agência essense.

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