Nem toda hepatite aguda sem causa definida se explica pelos vírus mais lembrados na rotina. No Brasil, a hepatite E merece atenção porque o vírus da hepatite E (HEV) circula de forma mais ampla do que os casos identificados sugerem — e, diferentemente dos surtos clássicos associados à água contaminada, o cenário brasileiro aponta principalmente para o genótipo 3, relacionado à transmissão zoonótica.
Durante muitos anos, a hepatite E foi associada a surtos em áreas com saneamento precário. Essa percepção, embora ainda relevante para determinados contextos epidemiológicos, já não explica sozinha a realidade observada em diferentes regiões do mundo. O HEV apresenta distribuição global e diferentes padrões de transmissão conforme o genótipo envolvido.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, estima-se que ocorram cerca de 20 milhões de infecções por HEV todos os anos, com aproximadamente 3,3 milhões de casos sintomáticos. A maioria das infecções é autolimitada, mas alguns grupos podem evoluir com maior gravidade. Por isso, incluir a hepatite E na investigação laboratorial pode ser decisivo em quadros de hepatite aguda de etiologia não esclarecida.
O vírus da hepatite E pertence à família Hepeviridae e apresenta genótipos com comportamentos epidemiológicos distintos. Os genótipos 1 e 2 são mais associados à transmissão fecal-oral, geralmente por água contaminada. Já os genótipos 3 e 4 têm perfil zoonótico, com reservatórios animais e transmissão relacionada principalmente ao consumo de carne crua ou insuficientemente cozida.
No Brasil, as evidências disponíveis apontam para a circulação predominante do HEV-3 entre os casos autóctones descritos. Esse dado muda a forma de pensar a doença: a suspeita não deve depender apenas de histórico de viagem ou de exposição a água contaminada, mas também de hábitos alimentares, exposição ocupacional e contexto epidemiológico regional.
Esse aspecto aproxima o país do cenário observado em regiões da Europa e da América do Norte, onde a hepatite E é reconhecida como zoonose emergente. Para os laboratórios clínicos, isso amplia o papel da investigação diagnóstica: não basta excluir hepatites A, B e C; em determinados contextos, é preciso considerar HEV como parte do raciocínio.
A revisão de escopo publicada por Mariz e colaboradores reuniu evidências sobre a infecção por HEV no Brasil e indicou ampla distribuição geográfica, com maior frequência nas regiões Sul e Sudeste. Essa distribuição é coerente com áreas onde a produção suinícola tem maior relevância, embora a circulação do vírus não se limite a esses territórios.
A interpretação desses dados exige cautela, porque as prevalências variam conforme população estudada, região, metodologia e disponibilidade de testes. Ainda assim, o conjunto das evidências reforça uma mensagem importante: a hepatite E provavelmente é menos diagnosticada do que deveria na rotina brasileira.
Parte desse subdiagnóstico pode ocorrer porque muitos serviços não incluem HEV nos algoritmos de investigação de hepatite aguda sem causa definida. Como os sinais clínicos se sobrepõem a outras hepatites virais e doenças febris, a ausência de solicitação laboratorial específica reduz a chance de confirmação.

A hepatite E pode se manifestar com fadiga, febre, náuseas, vômitos, dor abdominal, icterícia, colúria e elevação das aminotransferases. O quadro pode ser indistinguível de outras hepatites virais agudas e, em muitos casos, a infecção pode ser oligossintomática ou assintomática.
Na prática, a pesquisa de HEV deve ser considerada principalmente quando há hepatite aguda com sorologias negativas para hepatites A, B e C, elevação persistente de enzimas hepáticas sem explicação clara ou histórico compatível com exposição alimentar ou zoonótica.
Grupos específicos também merecem atenção. Pacientes imunossuprimidos, receptores de transplantes e pessoas em uso de terapias imunossupressoras podem apresentar infecção persistente ou dificuldade de confirmação sorológica. Gestantes e indivíduos com doença hepática prévia também exigem cuidado na avaliação clínica.
O diagnóstico da hepatite E depende da integração entre dados clínicos, epidemiológicos e laboratoriais. Na investigação inicial, a sorologia tem papel relevante. A detecção de Anti-HEV IgM indica infecção recente e costuma ocorrer próxima ao início dos sintomas.
Já a detecção de Anti-HEV IgG sugere exposição prévia ao vírus e pode permanecer positiva por muitos anos. Por isso, Anti-HEV IgG é útil tanto na avaliação de exposição quanto em estudos epidemiológicos, especialmente quando o objetivo é compreender a circulação do HEV em determinada população.
A interpretação sorológica deve considerar o estado imunológico do paciente. Em indivíduos imunossuprimidos, a resposta humoral pode ser reduzida, aumentando o risco de resultados falso-negativos ou inconclusivos. Nesses cenários, a pesquisa de RNA viral por RT-PCR pode ser fundamental para detectar viremia, confirmar infecção persistente e permitir genotipagem quando indicada.
Mesmo com o avanço das evidências, a hepatite E ainda enfrenta barreiras importantes na rotina diagnóstica. A baixa suspeita clínica continua sendo um dos principais obstáculos, sobretudo porque os sintomas são inespecíficos e podem ser confundidos com outras hepatites virais, leptospirose, dengue, febre amarela, malária e outras condições infecciosas.
Outro desafio é a disponibilidade desigual de testes e a ausência de protocolos padronizados para investigação da infecção. Como consequência, casos classificados como hepatite criptogênica ou hepatite aguda de etiologia indeterminada podem incluir infecções por HEV nunca investigadas.
Para os laboratórios, ampliar a pesquisa de HEV não significa testar indiscriminadamente, mas inserir o vírus em um fluxo racional, orientado por suspeita clínica, fatores epidemiológicos, perfil do paciente e resultados prévios da investigação de hepatites virais.
Os ensaios Anti-HEV ELISA (IgM e IgG) da Euroimmun foram desenvolvidos para apoiar a investigação sorológica da infecção pelo vírus da hepatite E na rotina laboratorial. O Anti-HEV IgM contribui para a identificação de infecção recente, enquanto o Anti-HEV IgG apoia a avaliação de exposição prévia e estudos de soroprevalência.
Em um cenário de provável subdiagnóstico, a disponibilidade de ensaios sorológicos padronizados pode ajudar os laboratórios a ampliar sua capacidade de resposta diante de quadros de hepatite aguda sem etiologia definida.
Como em toda investigação diagnóstica, os resultados devem ser interpretados em conjunto com dados clínicos, histórico de exposição, condição imunológica do paciente, marcadores laboratoriais e, quando necessário, métodos moleculares.
A hepatite E no Brasil representa um desafio relevante para a medicina diagnóstica: é uma infecção de distribuição provavelmente ampla, com perfil zoonótico importante e sinais clínicos pouco específicos. Isso faz com que muitos casos possam passar despercebidos quando o HEV não é incluído no raciocínio laboratorial.
Ao considerar a hepatite E em pacientes com hepatite aguda sem causa definida, especialmente quando há exposição compatível ou grupos de maior risco, o laboratório contribui para uma investigação mais completa e para uma vigilância epidemiológica mais consistente.
Mais do que confirmar uma infecção, investigar HEV ajuda a compreender melhor a circulação do vírus no país e a fortalecer a resposta diagnóstica para uma hepatite que ainda pode estar subestimada na rotina brasileira.
Olá, sou a Josie,
a nova assistente virtual da
Euroimmun Brasil.