Quatro anos e meio - esse é o tempo médio que uma pessoa demora para concluir o diagnóstico de uma doença autoimune, segundo a Associação Americana de Doenças Autoimunes Relacionadas (AARDA, na sigla em inglês)1. O longo tempo tem consequências sérias para esse paciente, pois a visita a múltiplos médicos e a demora em iniciar um tratamento imunomodulador pode agravar sintomas e prejudicar a qualidade de vida. Daí a importância da evolução tecnológica no diagnóstico de doenças autoimunes ditas sistêmicas, com envolvimento do corpo humano como um todo.
O exame FAN (Fator Antinuclear), utilizado pela primeira vez na década de 1940, é até hoje um dos mais importantes testes usados nessa jornada diagnóstica, tanto para detectar a presença de autoanticorpos com alvo em diversas estruturas celulares, como para o acompanhamento do tratamento. Em todo esse tempo, a tecnologia empregada na confecção dos kits evoluiu muito e, atualmente, a imunofluorescência indireta em células HEp-2 é amplamente reconhecida como o método de referência (padrão-ouro), com elevada sensibilidade para a detecção de autoanticorpos.
Dr. Carlos von Mühlen, médico reumatologista e patologista clínico, doutor em Medicina pela Universidade do Norte do Reno-Westfália na Alemanha, com pós-doutorado no Scripps Research Institute na Califórnia (EUA), é um especialista no diagnóstico de doenças autoimunes e esteve no Congresso Brasileiro de Análises Clínicas 2025, para participar do Curso Transcongresso sobre Autoimunidade, uma iniciativa que teve o apoio da EUROIMMUN Brasil com demonstrações práticas com o kit diagnóstico FAN HEp-2.
Durante o evento, Dr. von Mühlen conversou com a equipe do EUROHub e contou mais sobre a importância da inovação tecnológica que envolve os exames laboratoriais para a detecção de doenças como lúpus eritematoso sistêmico (LES), síndrome de Sjögren, esclerose sistêmica e outras doenças reumáticas autoimunes sistêmicas. Veja a seguir os destaques dessa conversa.
“O FAN é um exame de triagem quando há suspeita clínica de doenças reumáticas autoimunes sistêmicas, devido à sua extraordinária sensibilidade. Um resultado positivo permite, junto com a clínica, classificar os pacientes em diagnósticos precisos – como o anti-centrômero na esclerose sistêmica ou colangite biliar primária, ou então, via padrões do FAN, dar ensejo a que o médico saiba qual o próximo passo a seguir na investigação diagnóstica. A determinados padrões de fluorescência vistos no exame correspondem autoanticorpos específicos, a serem determinados em ensaios subsequentes. Uma análise abrangente pode ser vista no site do ICAP (International Consensus on ANA Patterns), www.anapatterns.org.
“Um outro aspecto é que existem critérios de classificação para as doenças sistêmicas reumáticas autoimunes que permitem colocar os pacientes em pesquisas clínicas de novos recursos terapêuticos.Caso o paciente não supra esses critérios ele não poderá aderir a esses novos protocolos, que normalmente usam autoanticorpos muito específicos como o anti-Sm e anti-DNA, no caso do lúpus eritematoso sistêmico, ou anti-Jo-1, no caso das dermatopolimiosites, para dar dois exemplos”, diz o especialista, que continua: “Nesses casos, o teste do FAN pode ser usado como critério de classificação parao o lúpus eritematoso quando seu resultado é positivo em título de pelo menos 1:80.”
É importante considerar que o FAN é um exame muito inespecífico e, portanto, é preciso sempre conciliá-lo com outros critérios clínicos e o resultado de outros testes de autoanticorpos para uma avaliação final do paciente, tanto para a classificação diagnóstica quanto para determinar prognóstico e acompanhar o tratamento.
Outra característica do teste de FAN diz respeito ao seu uso segundo os critérios SLICC (Systemic Lupus International Collaboration Clinics) para o Lúpus Eritematoso Sistêmico. O FAN é um dos pontos-chave para uso no diagnóstico clínico de pacientes individuais, juntamente com outros autoanticorpos.
“É possível dizer que o exame FAN auxilia o médico - seja ele reumatologista, imunologista ou clínico de outra especialidade - a orientar qual é a próxima etapa com o paciente, ou seja, qual será o próximo exame a ser solicitado de forma específica”, diz o Dr. von Mühlen.
Segundo o médico reumatologista, é importante que logo no aparecimento dos primeiros sintomas, e em especial quando há algum diagnóstico de doença autoimune na família, o paciente faça um painel de autoanticorpos. “Em caso de resultados positivos, a orientação é para que ele fique atento a sintomas importantes para poder repetir os exames, verificar o processo inflamatório e, se for o caso, iniciar o tratamento o quanto antes. A ideia é usar exames de alta sensibilidade, como o FAN, para orientar a escolha de exames de elevada especificidade, sempre com o respaldo de critérios como o ICAP”, complementa o Dr. von Mühlen.
Desde o ano 2000, existe um esforço nacional na capacitação dos profissionais de saúde para o diagnóstico de doenças autoimunes. Foi assim que o Consenso Brasileiro de Autoanticorpos (FAN) em células HEp-2 conseguiu mudar a perspectiva dos clínicos em relação ao exame, segundo o Dr. von Mühlen:
“Hoje os Consensos Brasileiros de FAN servem de exemplo para grupos internacionais e laboratórios que fabricam testes de autoimunidade justamente porque normatizamos a nomenclatura e fizemos as correlações clínicas principais com os padrões de FAN, o que facilitou o processo diagnóstico e o diálogo médico - laboratório. Em 2014, a experiência brasileira permitiu a realização do 1o Consenso Internacional de FAN (ICAP), que hoje norteia e embasa o exame de FAN no mundo.”
Nesse momento, segundo o especialista, o ICAP está se empenhando em fazer uma comunicação mais assertiva com médicos clínicos para que seus conceitos sejam amplamente utilizados na prática a partir do acesso gratuito ao site ou aplicativo do ICAP em sistemas Android e iOS.
1.https://www.benaroyaresearch.org/blog/diagnosing-autoimmune-diseases
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